EPE propõe seis estratégias para adaptar o setor elétrico ao clima

Roadmap da EPE aponta quatro riscos sistêmicos e medidas para planejamento, infraestrutura, operação, consumo, dados e governança.

A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) propôs seis frentes para tornar o sistema elétrico brasileiro mais preparado para secas prolongadas, chuvas intensas, ventos severos e ondas de calor. O Roadmap para Fortalecimento da Resiliência do Setor Elétrico Brasileiro em Resposta às Mudanças Climáticas, publicado em 14 de outubro, transforma uma avaliação sistêmica de riscos em medidas para planejamento, infraestrutura, operação, consumo, dados e governança.

Linhas de transmissão sob nuvens carregadas
Imagem ilustrativa. Photo by Francesco Ungaro on Unsplash

O documento de 67 páginas não cria uma regra obrigatória nem define sozinho um cronograma de investimentos. Ele funciona como orientação técnica para incorporar riscos climáticos às decisões do setor e conclui a ação de curto prazo CP17 do Plano de Recuperação dos Reservatórios de Regularização de Usinas Hidrelétricas do País (PRR), prevista no artigo 30 da Lei nº 14.182/2021.

Quatro riscos entram no centro da avaliação

A EPE organiza a análise em quatro riscos sistêmicos: redução da disponibilidade de recursos para geração; perda de eficiência na geração ou na transmissão; danos às infraestruturas; e aumento da demanda média e máxima de energia elétrica.

Esses efeitos podem ocorrer simultaneamente. Uma onda de calor, por exemplo, tende a elevar o consumo por climatização e pode reduzir o desempenho de equipamentos. Secas alteram a disponibilidade hídrica, enquanto chuvas intensas e ventos severos podem atingir linhas, subestações e outros ativos. Por isso, o estudo trata a interdependência entre geração, transmissão e demanda como uma das dificuldades centrais do planejamento.

A metodologia combina ameaça, exposição e vulnerabilidade e considera diferentes cenários climáticos e horizontes de tempo. A EPE ressalta que os cenários do CMIP6 não são previsões determinísticas: representam futuros plausíveis, sujeitos a incertezas climáticas, socioeconômicas, tecnológicas, regulatórias e de conhecimento.

As seis estratégias indicadas pela EPE

O Roadmap reúne medidas em seis estratégias complementares:

  1. Infraestrutura e inovação tecnológica: reforçar ativos, ampliar redundâncias, desenvolver materiais mais resistentes, expandir armazenamento, diversificar a matriz e fortalecer a rede de transmissão.
  2. Integração entre planejamento e ciência do clima: usar a melhor informação climática disponível, rever premissas de planejamento e considerar riscos na localização e no dimensionamento de novos empreendimentos.
  3. Operação resiliente e capacidade de resposta: incorporar informações climáticas em tempo real, estruturar protocolos para eventos extremos e acelerar inspeção, reparo e recomposição do sistema.
  4. Gestão da demanda e eficiência energética: ampliar resposta da demanda e sinalização econômica, integrar consumidores por redes e medição inteligentes, reduzir perdas e estimular equipamentos e processos mais eficientes.
  5. Aprimoramento e gestão de dados: expandir redes de medição, melhorar modelos climáticos e energéticos e integrar informações com transparência e interoperabilidade.
  6. Articulação institucional e governança: coordenar agentes elétricos com áreas como recursos hídricos, meteorologia e defesa civil, definindo responsabilidades e fluxos de informação tanto na normalidade quanto em situações de crise.

Na leitura da EPE, as estratégias não substituem umas às outras. Reforçar uma linha de transmissão pode reduzir a exposição de um ativo, mas não elimina a necessidade de previsões melhores, protocolos de emergência e coordenação entre instituições. A governança aparece como eixo transversal, enquanto os dados dão suporte a todas as demais decisões.

Planejamento terá de considerar clima e localização

Uma recomendação com efeito direto sobre novos projetos é considerar riscos climáticos na escolha de localização e no dimensionamento dos empreendimentos. O estudo também sugere metodologias para avaliar a resiliência de ativos e a revisão periódica de premissas usadas no planejamento da expansão e da operação.

Para a infraestrutura existente, a agenda inclui equipamentos e materiais mais resistentes, redundâncias, novas tecnologias e reforço da transmissão. O tema dialoga com investimentos já estudados pela EPE, como o plano de R$ 3,09 bilhões para reforçar a rede no sul gaúcho, mas o Roadmap tem alcance nacional e não associa suas medidas a um projeto isolado.

O documento também inclui armazenamento e flexibilidade entre as respostas possíveis à variabilidade climática. Essa direção aparece em paralelo às projeções do PDE 2036, que prevê 9,2 GW de armazenamento até 2036. No Roadmap, porém, a ênfase é a adaptação: como manter o suprimento e recuperar o sistema quando condições adversas atingem recursos, equipamentos ou a demanda.

Consumidor e dados também entram na resposta

A resiliência não fica restrita a usinas e redes. A EPE recomenda ampliar programas capazes de reduzir ou deslocar carga em períodos críticos e usar sinais econômicos que reflitam condições operativas e custos do sistema. Também propõe redes inteligentes, medição avançada, eficiência no consumo final e redução de perdas técnicas e comerciais.

Ao mesmo tempo, o estudo identifica lacunas na disponibilidade, padronização e troca de dados climáticos e energéticos. Sem séries consistentes, modelos adequados ao contexto brasileiro e informações compartilhadas, cresce a dificuldade de antecipar riscos e medir a eficácia das medidas de adaptação.

A publicação conclui um ciclo iniciado com uma revisão bibliográfica e seis documentos temáticos sobre hidreletricidade, geração solar, geração eólica, geração termelétrica, transmissão e demanda. Para a EPE, a resiliência deve ser tratada como processo contínuo: as medidas precisam ser ajustadas à medida que novos dados surgem e que o sistema elétrico e o clima evoluem.

Fontes oficiais

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