A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) estimou em US$ 30,08 milhões o investimento necessário para adaptar um gasoduto hipotético de 40 quilômetros ao transporte de misturas de gás natural com hidrogênio. A estação de compressão concentra 74% do custo calculado.

O cálculo integra a nota técnica publicada em 30 de setembro. O caso não representa um projeto real nem uma referência universal de custo. A EPE modelou uma infraestrutura teórica, isolada da malha integrada brasileira, com capacidade de 1 milhão de metros cúbicos por dia de gás natural.
O que entra na estimativa
As simulações consideraram concentrações molares de hidrogênio de 2,5%, 5%, 7,5% e 10%. A tubulação existente não precisaria ser redimensionada no caso analisado, mas a conta incluiu adaptações na compressão, cromatógrafo, válvulas de seccionamento, medidores e reguladores de pressão.
Dos US$ 30,08 milhões estimados, US$ 22,14 milhões correspondem à estação de compressão. Válvulas representam US$ 4,56 milhões; o cromatógrafo, US$ 2,09 milhões; medidores, US$ 693 mil; e reguladores de pressão, US$ 607 mil. Os valores foram atualizados para 2025 e incorporam uma taxa de 50% para tropicalização dos equipamentos.
Os custos operacionais não foram calculados. A EPE afirma que faltam dados públicos suficientemente fundamentados para estimar o OPEX, especialmente o consumo adicional de energia na compressão.
Mistura baixa não elimina a análise de integridade
No caso simulado, misturas abaixo de 10% alteraram as condições de escoamento de forma relativamente limitada e com tendência linear. Isso não significa que qualquer gasoduto esteja apto a receber hidrogênio nessa proporção.
A nota ressalta que alterações nas propriedades mecânicas dos aços podem aparecer mesmo abaixo de 10%. A compatibilidade precisa considerar material, soldas, pressão, temperatura, vedações, medição, detecção de vazamentos e manutenção. O hidrogênio também tem menor poder calorífico por volume, o que exige maior vazão para entregar a mesma quantidade de energia.
Em simulações adicionais com concentrações mais altas, a vazão necessária para manter a equivalência energética chegou a três vezes a requerida pelo gás natural. O resultado reforça o peso dos compressores e do consumo elétrico na viabilidade econômica.
Adaptação pode ser ponte, não solução automática
A EPE trata o aproveitamento de gasodutos existentes como uma alternativa para reduzir o investimento inicial e amadurecer o mercado. Entre os cerca de 37 mil quilômetros de gasodutos de hidrogênio anunciados globalmente para entrar em operação até 2035, aproximadamente um terço corresponde à conversão de ativos existentes, segundo dado da Agência Internacional de Energia reproduzido na nota.
A estratégia, porém, depende da concentração de hidrogênio, das características da infraestrutura, dos consumidores conectados e das regras de qualidade e segurança. A mistura também pode exigir separação posterior para indústrias e termelétricas que não aceitam determinados teores.
O estudo acrescenta uma referência concreta ao debate sobre infraestrutura da transição energética. O Plano Nacional de Energia 2055 projeta expansão de vetores de baixo carbono, mas a competitividade do hidrogênio dependerá também de logística, demanda contratada e regulação, não apenas do custo de produção.
