El Niño deve ficar muito forte; SIN tem 65,9% de armazenamento

Boletim oficial prevê riscos opostos de seca e cheias até janeiro, enquanto reservatórios do SIN seguem em faixa normal.

Torres de transmissão atravessam um campo sob nuvens carregadas.
Imagem ilustrativa. Photo by Rob Martin on Unsplash

O fenômeno El Niño deve alcançar intensidade muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, segundo o quinto boletim mensal do Painel El Niño. O documento, publicado em 29 de outubro por sete órgãos federais, projeta chuva acima da faixa normal no Sul e em partes do Sudeste e do Centro-Oeste, enquanto grande parte do Norte e áreas do Nordeste e do Centro-Oeste tendem a registrar chuva abaixo da normal.

Para o setor elétrico, o dado central é a combinação de um nível agregado ainda confortável nos reservatórios do Sistema Interligado Nacional (SIN) com riscos regionais opostos. Em 23 de outubro, o volume equivalente do SIN era de 65,9% do volume útil — o segundo maior valor para a data desde 2015 —, mas o boletim aponta possibilidade de vazões abaixo da média em bacias do Norte e do Nordeste e risco maior de cheias na Região Sul.

Reservatórios do SIN seguem em situação normal

O boletim informa que todos os sistemas hídricos com reservatórios do SIN e faixas operativas definidas pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) permaneciam na faixa normal. No Sul, os reservatórios de regularização armazenavam 78,1% do volume útil.

Os principais sistemas citados também estavam dentro de suas faixas normais. Três Marias tinha 71,9% do volume útil e Sobradinho, 62,0%. Serra da Mesa registrava 43,6%; Furnas, 63%; Emborcação, 54%; e Itumbiara, 64%. Os percentuais são fotografias de 23 de outubro e não substituem o acompanhamento operacional diário.

Esse quadro atual é mais favorável do que uma leitura isolada do El Niño poderia sugerir. A avaliação do CMSE sobre o encerramento do período seco, publicada pela Eletropauta em outubro, já havia mostrado armazenamento agregado de aproximadamente 61% no fim de setembro.

Riscos são diferentes entre as regiões

O Painel El Niño prevê vazões abaixo da média até janeiro em boa parte do Centro-Oeste, do Norte e em parte do Sudeste. O risco de estiagem persiste até dezembro nas bacias dos rios Negro, Xingu e Tapajós. Na bacia do Araguaia, o boletim identifica risco de estiagem em novembro, com redução a partir de dezembro.

Na direção oposta, as previsões indicam vazões acima da média e maior risco de cheias em toda a Região Sul, em parte do Sudeste e no alto rio Paraguai. O risco aumenta em janeiro no Sudeste, sobretudo nas bacias dos rios Doce e Paraíba do Sul.

No rio Xingu, a flexibilização temporária da vazão mínima garantida ao Reservatório Intermediário da usina de Belo Monte, de 300 metros cúbicos por segundo para 100 metros cúbicos por segundo, permanece vigente até 30 de novembro, conforme a Resolução ANA nº 299/2026. O boletim relaciona a medida à preservação da transposição de peixes, da segurança eletroenergética e da navegabilidade regional.

O que o boletim permite concluir

O documento sustenta a necessidade de monitoramento reforçado, não uma previsão automática de falta de energia ou alta de tarifa. A intensidade do El Niño aumenta a probabilidade de eventos hidrometeorológicos, mas seus efeitos sobre geração, transmissão, distribuição e preços dependem da localização, da duração dos eventos, da resposta dos agentes e das condições efetivamente observadas.

A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) também publicou, em 29 de outubro, um relatório sobre resiliência do setor elétrico diante do El Niño 2026-2027. A síntese da Agência destaca riscos mecânicos e logísticos associados a inundações e vendavais no Sul e a estiagens, vazantes e queimadas no Norte, Centro-Oeste e Nordeste.

As duas publicações convergem na recomendação de acompanhar previsões, avisos e alertas oficiais. A agenda de adaptação climática é mais ampla: em outubro, a Eletropauta mostrou as seis estratégias propostas pela EPE para fortalecer a resiliência do setor elétrico.

Próximas atualizações

O boletim mensal prevê continuidade do monitoramento pelos órgãos participantes. A ANA programou para 3 de novembro a reunião da Sala de Acompanhamento do Sistema Hídrico do Rio São Francisco. Outras reuniões de novembro tratam dos sistemas do Paraíba do Sul, Paranapanema, Sul, Tocantins e Paraná.

Para a leitura setorial, os próximos sinais relevantes serão a evolução das vazões e dos armazenamentos, eventuais mudanças nas faixas operativas dos reservatórios e atualizações do ONS e do CMSE. O quadro de 23 de outubro é favorável no agregado, mas não elimina riscos localizados.

Fontes

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